quinta-feira, 17 de maio de 2018

Tentei!

não é que eu precise de alguém como eu, dramático, e não é que tu sejas seco nem gelado.
tudo bem que eu te considero, pra essa coisa de amor, um tanto desligado
mas deixa!
Te quero mesmo assim
e aceito que teu jeito de amar é mais silencioso...

Nem um ai

Adentrou o armazém e pediu alguns pães
Eu atendia no balcão
conhecia de longa data aquele senhor triste.

Olhou em volta,
Procurou algo mais,
Não lembrou
- Seria mesmo só o pão.
Disse que meu nome fora mencionado dia desses em sua casa,
pois estudei com seu filho mais velho no colégio das freiras
e teve um dia em que interpretamos Romeu e Julieta.

Uma outra cliente
mulher também conhecida de nossa pequena cidade
aproveita a deixa e pergunta como vai seu filho.
- Vai bem, responde o pai, mas voltou a estar no hospital.

A mulher ouve, ele explica calmo
que seu filho é forte, corajoso demais.
Diz que nunca reclamou da condição que lhe foi imposta
"Nem um ai".

Eu me lembro bem como ele era na escola
A descrição combinou com minhas lembranças,
lembranças vagas de um colega que, de todos os outros,
e de mim, inclusive,
parecia menos merecer um corpo doente como o que agora sustenta.

Não era alguém de grande importância no meu universo da época
(cheio de assuntos importantíssimos 
da minha puberdade)
Era tão bom que me machuca pensar no seu corpo fraco
lutando,
pra existir ainda
"Nem um ai" sobre a condição que lhe foi imposta.

O pai falava pois precisava falar
A mulher ouvia e encenava um sorriso reconfortante 
queria reconfortar, mas temia mais que o próprio pai.

Eu ouvia também a conversa enquanto empacotava compras de outros
E me cortava.

- Obrigada, digo, e mando um oi a meu ex-colega
- certo, e sai ele pela porta com aquele sorriso, aquele fio ainda de determinação.

Resta então a mulher e eu;
Empacoto suas coisas com meus olhos marejados 
Não consigo dizer nada tamanha a vontade de desabar, a garganta dói
e é com o mesmo sentir que ela me paga também.

Tivemos que esperar o pai sair pra demonstrar o quanto sentíamos
Ninguém quer deixar transparecer o medo da morte frente a um pai.
Ele nunca mereceu,
mas quem merece? 

sábado, 12 de maio de 2018

Dia das Mães

Com a voz engasgada ele disse ao telefone
"Posso falar mais uma coisa?
Eu tava chorando
Por que eu tava com saudade
De ti"
É uma criança de quatro anos
Que acabou de se despedir do pai na rodoviária
E foi com a mãe visitar a vó no dia das mães.

Estamos na viagem há uma hora
Ele disse que visitar a vó demora demais.
Estamos na viagem há duas horas
Quanta coisa eu já pensei.
Ele ri, ele chora,
Olha os caminhões, os cavalos,
Lembra do pai
Chora.

Estou dividindo o fone de ouvido no disco da Letrux
Que não tem nada a ver com esse ônibus
pinga-pinga com destino Camaquã-Cristal-São Lourenço do Sul.

Amanhã é dia das mães
E as empresas de ônibus lucram com as distâncias.
Quanto já lucraram em cima de mim?

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lan houses tem cheiro de pum

Lan houses tem cheiro de pum
e cheiro de CPU velha:
um cheiro metálico misturado com enxofre,
quase um cheiro de um futuro pós-apocalíptico
onde o metal retorcido da tecnologia ainda funciona e as crateras vulcânicas liberam gases pelo chão.

Lan houses do centro são habitadas por velhos tarados que não tem computador em casa,
por velhinhas que não sabem digitar seus currículos e querem encontrar um emprego,
por crianças pobres que esperam os pais, vendedores ambulantes, enquanto jogam seus jogos online,
por homens estranhos que se sentem em casa no canto de uma lan house enquanto acessam o Bate-Papo UOL e soltam, relaxados, sem perceber, pequenos peidinhos.

Lan houses normalmente estão situadas num andar desativado de uma galeria velha,
junto de um relojoeiro invisível que conserta relógios cuco,
de uma contadora escabelada nada confiável,
de lugares que compram cabelo, compram ouro e vendem calcinhas a um real.
Para acessá-las é preciso subir dois lances de uma escadinha estreita, seguindo uma placa de led colorido escrito "Xerox". Parece filme da máfia italiana, parece que subir essas escadas guarda um segredo, como o matador indo comprar armas no velho chinês.

Lá chegando, encontra-se uma portinha, também estreita, e o atendente te entrega, sem perguntar, um papelzinho com o número do seu PC.
São mais de 20 ventoínhas funcionando sem parar há 18 anos.
A tecnologia insustentável apodrece com seus odores de metal velho.
Segurar o mouse é pegar em ranho,
mexer na máquina é pegar vírus.
Muito cuidado ao inserir seus pendrives!
Adentrar uma lan house é viver perigosamente.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Saudade do útero

Aqui estou e lembro
de ser grata.
Cada parte daqui é uma parte de mim
e cada fragmento daqui
é um fragmento de minhas memórias.
Estou aqui
e lembro.

Passo pelo teu pai
e lembro de como tu contraía todos os músculos do teu corpo
de excitação
quando algo te empolgava
e dava pulinhos.

Me lanço na lagoa sem pensar
envolvida em uma névoa densa de memórias não nítidas
e mergulhada em suas águas
marrons, cheias de sedimento orgânico,
lama,
me lembro do teu útero mãe
e abraçada pelo movimento das águas calmas
me lembro da sensação de quando meu pai
tirou aquelas fotos em que eu estava mergulhada
até as orelhas
e quietinha
não queria sair
não queria crescer
era início de verão
como agora
e eu me lembro
que inventei essas memórias
que amo.

Não lembrava de quando chorei para minha mãe
dizendo querer ser criança pra sempre
mas ela me contou
e agora eu lembro.

domingo, 4 de março de 2018

Maurilio, quando te conheci

sabe-se lá o que aconteceu
sabe-se lá (reticências)
não fechei os olhos, mas caí em sono
caí em sonho

o cenário se transformou -ou melhor, desapareceu
e entrei tão em mim
que no meu fundo descansei e assim senti
o cheiro o toque a música o arrepio
o cheiro o toque a vontade
a vontade do toque do cheiro do quê

ah (mais reticências)
não posso me mexer quando estou sonhando
não soube o que fazer pois
não consigo me mover contigo me tocando
não soube mentir não querer ser teu canto (...)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A gosma social

vídeo de gatos em cima de mulheres fazendo pole dance
vídeo de um dinossauro fazendo pole dance
vídeo de um cara em uma entrevista de emprego
vídeo de como fazer coisas inúteis com cola quente
vídeo de como decorar unhas gigantes e pontudas
vídeo de um mini pão com ovo
cinquenta outros videos que eu nem lembro
vou passando o dedo e eles vão rodando
e eu vejo todos
absorta numa onda de não pensamentos

pessoas na praia
pessoas na praia
pessoas no mato

pessoas na praia
pessoas felizes na praia
pessoas com ódio dos fogos que machucam os ouvidos dos cachorros
pessoas na praia com ódio dos fogos que machucam os ouvidos dos cachorros
cachorros na praia
gatos.