segunda-feira, 17 de abril de 2017

Vida

Que eu possa tomar um café com amigos.
Que eu possa sentar em um café com um amigo sincero
Um velho, um novo amigo,
alguém que esteja disposto a estar em minha companhia
E ser agradável.

Sentar em um café
Tomar um café
Pagar um café se meu amigo estiver pelado e não puder pagar seu próprio café
Eu lhe pago um ou dois ou quantos cafés
Por sua companhia
E se eu não tiver nenhum dinheiro
Que eu tenha algum amigo que queira me pagar um café em troca da minha companhia.
E que eu seja agradável.

E se eu não tiver amigos que aceitem meu convite
No meio da semana, na terça-feira,
Trabalhosa ou folgada,
Que eu possa tomar um café
sozinha em um bom lugar
E que eu seja agradável.


Sobre a necessidade de encontrar codinomes/eu-líricos

Poesia narcisista
Obra egoísta.

Eu eu eu eu eu.
Eu.
Pesa o clima!
Poema diário, sem chaves,
lançado na rede pra ninguém ver
ou pra quem quiser ver
ou pra quem chegar sem querer naquele sítio.
Neste sítio.

Bem aqui,
de onde esse poema não sairá.
Poema sozinho de versos sem fundo
Nascerá e morrerá nesse endereço:

w w w ponto
Aqui jaz
Minha poesia egocêntrica.

domingo, 26 de março de 2017

Tudo vai

Eu estou tão ansiosa que nem sinto mais meu corpo.
É como se a dor não existisse
além da dor de existir.
Como se não existisse corpo em mim.

Estou tão ansiosa que não sei se rio
ou morro.
Tão ansiosa que arranco pedaços de mim.

Tudo vai dar errado.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Egoísmo

Acordei
Fui direto massagear meu ego:
olhar fotos em que me achei bonita
postar algo sobre paz.
É bom estar em casa
Passar o dia em casa com as janelas fechadas
sozinha
pelada.
Ler alguns poemas antigos
Conversar com pessoas que gostam de mim,
ouvir os discos que eu
e somente eu
escolher.

Que sensação!
Café e cigarro.
Suor
é verão.
Sou uma gosma egoísta.

É difícil pensar em meditação quando se mora em um apartamento.
Não há contato com o solo, nem troca de energia.
O chão de um apartamento é uma ilusão:
não tem terra, nem grama, nem energia.

Minhas plantas na janela também não viram o sol hoje.
Estou de folga.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Incondicional

Amar cada parte do corpo dela
Muito mais que cada parte do meu.
Amar cada marca da sua pele,
a verruguinha no seu ombro,
A cicatriz na coxa de quando caiu de bicicleta
Adolescente no interior.

Qualquer coisa que ela toca vira ouro.
Amar
Suas mãos de trabalhadora
Fortes e ásperas.
Amo seus cabelos macios
e o cheirinho de cigarro escondido na sua pele.

Os pelinhos loiros
feito penugem em seu rosto,
suas rugas.
Amo como o tempo passa e ela parece mais linda.

Amo as estrias em seus seios
e as pequenas varizes em suas lindas pernas.
Amo seus seios que um dia suguei em busca do seu leite que amo.
Eu, quando ainda nem era eu.
Um pedaço de carne
construído em seu ventre,
um filhote.

Tudo
que ela ama vira ouro.
Sob o olhar dela eu me sinto ouro.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Avenca

Murchou a avenca.
Murchou num dia e no outro
Morreu.
"Sensível como uma avenca."
Delicada, à presença do invejoso
Murcha
E morre.

Confesso
dolorosamente
ter trazido estes demônios para casa.
Carrego-os comigo.
Eles habitam meu entorno e os tenho carregado com afinco.

Não é só de inveja que minha alma é doente...
Essa vida de inveja há de matar-me
São dias só de febre na cabeça (...).

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Os medos de Cleide

Cleide já não tem mais medo de elevador.
Ficou, de certa forma,
Surpresa quando
Ao apertar o botão que à levaria ao 12° andar
Não sentiu o típico frio na barriga
Apesar de ter sentido, ainda,
A tonturinha advinda da labirintite psicológica
Herdada de seu pai.

Cleide também já não tem mais
Medo de ventanias e tempestades
- esse medo no seu pai só piora com o passar dos anos.
O velho quase surta
Quando ouve na previsão do tempo sobre a vinda de um
Ciclone extra-tropical -.
Cleide perdeu esse seu medo ao mudar-se para a cidade grande
Pois nas grandes cidades os prédios escondem o horizonte
E a gente não vê as nuvens pretas se aproximando ao longe e nem tem tempo de sentir
o momento aquele
quando tudo fica quieto e aguarda pela tempestade.

Cleide agora mora em um apartamento
E não tem um telhado pra temer voar.

Cleide perdeu
Quase por completo
O medo de avião.
Voou umas quantas vezes nesses últimos meses.
Gosta de decolar e pousar
Mas ficar muito tempo lá em cima
Ainda lhe causa um pouquinho de claustrofobia.
Seu pai andou uma vez de avião e depois disso desenvolveu um grande trauma e prometeu nunca mais fazer grandes viagens.

Cleide não tem mais medo de metrô.
Cleide já fica sozinha numa boa e não tem mais medo de aparições paranormais
Nem de escuro,
Apesar de não lhe ser recomendável assistir a um filme de terror quando precisa ficar sozinha
E apesar de ainda dormir com um abajur aceso por não gostar da sensação de abrir os olhos no meio da noite
E só ver a escuridão.

Perceber que não tem mais medo de elevador foi para Cleide uma grande metáfora pois
tendo nascido e crescido em uma cidade sem elevadores
e sem prédios com mais de três andares,
não ter medo
significa uma mudança pra valer.

Hoje em dia
realmente,
só sinto medo de perder minha mãe.