domingo, 15 de abril de 2018

A Invenção

Coisas inventadas!
Nossa realidade está distorcida pela presença
de coisas inventadas.

Quem foi que inventou a cadeira?
E quem foi que disse que a vida é melhor
com uma cadeira
e pior
sem uma cadeira?

Um lindo conjunto de seis cadeiras
Em volta de uma mesa de vidro
com uma toalha de algodão
onde a família e os amigos podem se sentar e degustar um bom vinho
ou brigar por causa de política.

Poderia ser o chão numa casa de pau a pique,
somos forçados a pensar que estamos errados
em viver sem estar cercados
dessas coisas inventadas.

O pão, pão de Deus, pão dos pobres,
inventado a não sei quantos mil anos
que invenção que deu certo!
É obrigação, agora, ter pão em cada padaria
é obrigação comer um pão de manhã
não
pão agora engorda
é obrigação comer de três em três horas
não
jejum intermitente
inventado
inventado
inventado
já pensou na bizarrice de um hambúrguer?
Pão (redondinho) inventado por um,
Queijo (chedar laranjinho processado) inventado por outro,
Carne moída (quem foi que inventou moer a vaca?)
num formatinho de hambúrguer
frito no óleo (extraído de um caralho de girassol e vem em garrafas de PLÁSTICO que merda é essa?!).
Daí vem a alface, que dentre tantas verduras que cresciam livres alguém inventou que a alface deveria ser a mais consumida,
E o tomate (em rodelinhas, por favor).
Tudo em camadas, uma invenção em cima da outra,
e as vezes de noite a gente pensa "ai, que vontade de comer um hamburguer"
assim mesmo, em camadas,
não de outra forma, não de outro jeito:
a gente inventa até as vontades.

Cama, lençol de algodão, tapetes persas, fogão,
cinema, televisão, livro, palavra,
Janela, apartamento, espelho
roupa
estilos de roupa
se vestir feio, se vestir bonito
tudo inventado
tudo feito pra gente achar que é importante.

Um modelo de sociedade que te impossibilita sair da invenção
Te impossibilita ser pleno.
Então melhor viver achando que ser pleno é ir atrás dessas coisas inventadas
E ter elas
e amar elas
um culto à invenção.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Saudade do útero

Aqui estou e lembro
de ser grata.
Cada parte daqui é uma parte de mim
e cada fragmento daqui
é um fragmento de minhas memórias.
Estou aqui
e lembro.

Passo pelo teu pai
e lembro de como tu contraía todos os músculos do teu corpo
de excitação
quando algo te empolgava
e dava pulinhos.

Me lanço na lagoa sem pensar
envolvida em uma névoa densa de memórias não nítidas
e mergulhada em suas águas
marrons, cheias de sedimento orgânico,
lama,
me lembro do teu útero mãe
e abraçada pelo movimento das águas calmas
me lembro da sensação de quando meu pai
tirou aquelas fotos em que eu estava mergulhada
até as orelhas
e quietinha
não queria sair
não queria crescer
era início de verão
como agora
e eu me lembro
que inventei essas memórias
que amo.

Não lembrava de quando chorei para minha mãe
dizendo querer ser criança pra sempre
mas ela me contou
e agora eu lembro.

domingo, 4 de março de 2018

Maurilio, quando te conheci

sabe-se lá o que aconteceu
sabe-se lá (reticências)
não fechei os olhos, mas caí em sono
caí em sonho

o cenário se transformou -ou melhor, desapareceu
e entrei tão em mim
que no meu fundo descansei e assim senti
o cheiro o toque a música o arrepio
o cheiro o toque a vontade
a vontade do toque do cheiro do quê

ah (mais reticências)
não posso me mexer quando estou sonhando
não soube o que fazer pois
não consigo me mover contigo me tocando
não soube mentir não querer ser teu canto (...)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A gosma social

vídeo de gatos em cima de mulheres fazendo pole dance
vídeo de um dinossauro fazendo pole dance
vídeo de um cara em uma entrevista de emprego
vídeo de como fazer coisas inúteis com cola quente
vídeo de como decorar unhas gigantes e pontudas
vídeo de um mini pão com ovo
cinquenta outros videos que eu nem lembro
vou passando o dedo e eles vão rodando
e eu vejo todos
absorta numa onda de não pensamentos

pessoas na praia
pessoas na praia
pessoas no mato

pessoas na praia
pessoas felizes na praia
pessoas com ódio dos fogos que machucam os ouvidos dos cachorros
pessoas na praia com ódio dos fogos que machucam os ouvidos dos cachorros
cachorros na praia
gatos.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Me sinto em casa no centrão

Pela rua só se ouve grêmio
Grêmio
Foguetes
E um pouco de compro ouro
Caminhando no centrão eu me sinto em casa
E acho bom esse furdunço 
E gritaria 
Toda cheia de sacolas eu estou mimetizada
Passo pela loja em que comprei as larvas 
Pra virgínia
E gosto da sensação de conhecer essas ruelas
Me sinto em casa
Meu ombro doendo por que sou muito sacoleira
Cruiz credo, como eu sou sacoleira!
E tem um lugar que se chama casa das cordas
E só vende cordas
Isso não é louco? 
E quando a gente chega lá o vendedor pergunta:
O que é pra senhora?
E a gente responde
Eu quero corda
Hahahhahahahaha
Eu gosto muito do centrão

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Do pouco que eu sei, digo talvez.

Quis ser a bicicleta que tu ganhou naquele natal. 
Quis ser um dos teus amigos quando vocês saíram sem rumo e faltaram a aula. 
Quis ser tua mãe Creuza quando tu não queria comer o almoço,
quando descobriu tua mochila esquecida no colégio
ou quando tu saiu do banho com os joelhos sujos.
Quis ser tua irmã Gilmara te apresentando Paralamas do Sucesso,
quis ser tua irmã Fabiana nas tardes musicais quando tu aprendeu a tocar violão. 

Quis ser o papagaio Loro que te pedia café,
Quis ser a moça por quem tu te apaixonou em Macapá, 
Quis ser o barco no qual tu cruzou o rio,
uma das redes em que tu deitou. 

Quis ser teu pai quando trabalhava na quitanda e conheceu tua mãe,
e, mais além, quis ser Neide, amiga da tua mãe que foi parar no orfanato em Santos nos anos 70.
Quis ser teu professor de Sax, 
Quis ser a cidade de Bagé e te ver andando solitário,
Quis ser as urticárias no teu rosto em Bagé. 

Quis ser Raul, teu colega de quarto em Pelotas,
Assim como quis ser Raul, teu filho. 
Quis ser a médica que tirou Raul da barriga de Milene, 
quis ser a primeira pessoa que segurou teu filho.
Quis ser alguém do lado da tua cadeira do hospital, que pudesse tocar no teu ombro e dizer que tudo ficaria bem. 
Quis ser a saia meio hippie que ela usava naquele video do Raul recém nascido
com teus pais no apartamento feio em Pelotas.
Quis ser tua mãe, mais uma vez, e não ir embora pra João Pessoa. 
Quis ser o Jack, quis ser o Kim, quis ser o Roberto e a irmã dele naquela festa. 
Quis ser a Gabi, namorada do Roberto, gravando os vídeos da tua banda. 
Quis ser a cocaína que tu cheirou, quis ser tua colega no direito, quis ser tua colega no estágio, quis te levar um café, quis ser tua colega no banco, sentar ao teu lado no caixa. 
Quis ser a camisa xadrez que tu mandou fazer na costureira, 
quis ser o tecido que tu escolheu.

Quis te ver nascer com as bolas tão grandes quanto as bolas do Raul. 
Quis ser as bolas do Raul! 
De alguma forma, tudo é tão nítido, é como se eu pudesse realmente estar lá durante a tua vida,
tua vida que tanto amo. 
Sofro pois queria mais, 
mas entendo que seria um pouco egoísta de minha parte ser todos eles. 
Sigo tentando me infiltrar nessas memórias. 


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Casas

Da minha casa eu vejo o sol refletido nos vidros do apartamento da frente.
Minha casa também é um apartamento alugado, mas achei que não precisava dizer isso pois a casa de quase todo mundo é um apartamento alugado.
Na minha opinião, a sensação de lar muda bastante quando eu chamo meu apartamento de casa.
Eu tenho sorte de o sol refletir no apartamento da frente e seu reflexo de quase calor e quase luz que gera uma quase sombra,
entrar pela grande janela do meu apartamento. Apesar de ser um sol virtual,
Nem todos tem sol nos apartamentos do centro da capital.
Então eu preciso ficar feliz. E fico.

Minha mãe mora em uma casa. Uma casa mesmo.
Uma casa mesmo que meus pais mesmo construíram.
Na verdade, eles não construíram, né, assim com as próprias mãos.
Eles idealizaram e pagaram a construção com o suor do seu trabalho.
Quem suou construindo foram os pedreiros que eu não lembro o nome
Mas lembro que eu tinha nove anos quando a casa estava sendo erguida e eles tiravam com a minha cara, me deixavam com raiva, eram brincalhões,
e eu via aquela estrutura surgindo: um banheiro, sala, cozinha, uma escada, um chão.
Eu via ela surgindo e subindo de um terreno que antes era só mato.
Eu vi o cano da descarga ser colocado, achei curioso.
Eu podia pular sobre as paredes ainda baixas.

Já a minha avó materna
mora em uma casa que ela mesma construiu.
Ela, o pai dela, a mãe dela, o avô dela.
Eles fizeram tijolo por tijolo de barro.
E as telhas, e tudo.
Eles colocavam barro numa forma, assim, retangular, e socavam o barro, e depois assavam o barro num forno que ainda está lá, inteiro
(ou será que não existe mais? Pode ter quebrado, caído, virado ruína... faz tanto tempo que eu não vou lá. Sinto saudades)
E as telhas eles faziam nas coxas pra ficar com aquele formato
ou será que estou confundindo as histórias e quem fazia as telhas eram os escravos de Pelotas?
Minha bisavó nunca teve escravos.
Isso me deixa um pouco mais aliviada, que naquela época dos escravos meus bisavós estavam vindo pra cá num navio cheio de pomeranos
E eles ganharam as piores terras
Eram mão de obra barata
Claro que sofreram!
Vieram buscando uma vida melhor.
Ainda assim, não eram escravos.
Vieram pois quiseram,
Não vieram arrastados.
Vieram com esperança,
Não vieram desolados.
Receberam suas terras
não foram libertados.

Carrego em mim uma culpa... Queria descobrir de onde ela vem.
A culpa do mundo.
As vezes choro pela culpa.
As vezes sei de onde ela vem.
As vezes me faço de louca
e tento esquecer.
Muitas vezes consigo!
Outras não.

Carrego em mim uma culpa.
Gostaria de saber de onde ela vem.