quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

gaiola

O canário do meu vizinho sempre canta a noite.

- eu ouço o blues
ele chora.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Suspiro, ah

Quem dera pudesse decifrar em palavras o amarelado daquela manhã, posta a mesa pra mim, pra ti, e o sol a entrar em fios de luz pela janela. Sala vazia, pés descalços empoleirados na cadeira, querendo chegar a ti, que sorrindo passava no pão a manteiga e tomava um gole de café. A graça toda de acordar do teu lado e pôr a mesa, a graça toda de pensar que logo mais a manhã se torna dia e, depois, só a noite pra te ver - que eternidade! -. Foi a primeira vez que não neguei ser tua sob o sol, lembro bem. E os olhos semicerrados pelo sono tranquilo... E os dedos do pé enrolados na madeira da cadeira, feito poleiro, me segurando pra não voar...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ciclo

O corpo tal maçã mordida
Apodrecendo sobre a mesa
Sob a cama.
Corpo, maquilado e belo,
Exala fedor quando há boca aberta.

Logo ao início da decomposição 
já não há volta: 
só se disfarça a doença,
o cheiro, a podridão.
E pouco a pouco a alma vai fundindo à carne
Deteriorando por igual,
se não mais. 

Até o fim da vida
a vida já não passa 
de decomposição.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Dentro

Gosto de ficar
imaginando insultos.

Encho de palavrões
- tirando o sentido,
aumenta o charme -.

Me sinto foda;
Meiga é o meu cu.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Foto

Em uma mão duas fumaças
a do cigarro e a do chimarrão
E na outra a foto que mostrava
lembrando do tempo em que era pitél

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Não esquenta, amor,

Que no fim das contas tudo vira
mais um bibelô quebrado
remontado, recolado,
numa estante de lembranças,
que só serve
pra tirar o pó.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Agourentas

Sirenes são agouros de morte.
Vêm gritando ao longe
e, ao perto, já matando
de medo o peito apertado
por curiosidade mórbida
arrepio do ouvido
lembrando um qualquer, relaxado,
do mundo onde vive.
De que é fácil estar ali e, de repente,
uma sirene vir lhe encontrar.
Ou, vai ver, nem chega a tempo, a agourenta!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

São Lourenço quando pára

uma estranha calmaria se espalhou pela cidade
estranha/mente linda
mais quieta ainda que o normal

parece que a vida contentou somente em ser
parece que o tempo espera o tempo de morrer
sem hesitar

só os pássaros sabem do que vem a acontecer
cantam na curva a melodia do partir
e o sol que vem trazer seu vermelho a todo azul
conta a dor
canta a dor



sexta-feira, 31 de maio de 2013

aquática

Se pretendes discernir as minhas fotos
é só ver quais tem manchas d'água.

Segundo Dona Wilma,
com poucos meses
no mundo real,
até ela fui chorando.

Hoje mesmo retorno
com o mesmo nível
hidropônico no sangue.