segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sentir só

Ele grita na janela
uiva,
bate:
é a raiva do mundo transmutada
em vento.

a casa é forte mas parece que sacode 
tamanhos ruídos envolvendo-nos.

estou só
e tenho medo
- a simplicidade de estar só
e sentir só.



Luz Silenciosa

Deitada confortávelmente
em minha cama,
recém acordada pelo sol
cubro meu rosto com o lençol.

A preguiça vagarosa tranquilidade de ainda não pensar em nada
além de um sonho que não lembro.
Lençóis brancos de algodão sobre meu rosto
filtram o sol a entrar pela janela e rebater nas paredes do quarto.
O som das árvores farfalhando,
passarinhos.

Vejo só a claridade leve
o lençol dança um pouco com a brisa, me refresca e me aquece,
é um manto sagrado e na cama me mantém, me sepulta.

Sinto a respiração longa sonolenta
e aos poucos deixo de lado a necessidade de respirar.
Completamente sem me mover
já não sei se durmo
ou morro.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Mon Amour

Via rugas crescendo no corpo, no rosto.
Tapou os espelhos.

Pintou as unhas, fumou um cigarro,
fez de conta que era filme
do tipo francês que não sabe o nome
mas sabia que era sexy.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Lembrança

A chuva finalmente começou a cair.
Sentada na janela observo os sons do escuro:
grilos, sapos, cães
chuva.

Imagino o chão molhado por entre as graminhas, a terra fértil, o chão vivo faz barulho.
Imagino as minhocas sentindo a terra molhada
em seus corpos retorcidos
E as lesmas colocando pra fora suas anteninhas curiosas.
Penso nas formigas tristes operárias dentro de seus formigueiros
e os tatus bolinha que se escondem
pra quem já não é criança não achá-los
de jeito algum.

Penso nas aranhas
sentindo as gotas começarem a chegar em suas teias,
ficando bravas por não serem mosquitos
mas mantendo seu orgulho de aranha.

penso naquele inseto,
o que alguém me disse alguma vez
que faz barulho até explodir
e que apelidei, gentilmente, de besouro suicida
Será verdade?

Penso na casa de minha avó, sinto saudades.
Que tanta lembrança a chuva nos traz!
Por isso dói a chuva quando se sofre.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

cyberespaço

nasceram ainda
vocês
na época de jogar bola
brincar no meio da rua?

Nasceram
ainda
fora do cyber espaço
mundo virtual
10 mil anos luz atrás
não tiveram sua foto de bebê publicada no facebook
com frases de amor de suas #mães e #tias?

Imagino, logo mais, que mainstream
ter seu álbum de bebê no instagram #instagood
as memórias numa nuvem
o cabelo do primeiro corte num vidrinho em nitrogênio
pra servir à genética e fabricar anticorpos
que em nós foram criados
por andar de pé descalço
no chão gelado.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Agora que já faz um mês

O vidro quebrado por meu pulso
Na janela
é portal do vento a açoitar minhas velas.
Dobram-se as chamas por permiti-lo andar sobre elas,
repousar em meu quarto
em forma de frio.
Calado observa
o velho cabide cheio de chapéus
que quando criança assustava-me com formas de senhor,
e agora dança a sombra à luz das velas de malas prontas para partir.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Poema triste do poema perdido

Hoje estou triste, não vou escrever por um mês.
Perdi um poema, sumiu meu rascunho. Estava certa de que lá estava
e não, não estava, não.
Deve ter caído pelos corredores
Voado com a ventania que fazia,
Borrado com a chuva.
Alguém deve ter lido e achado bobo
pois estava todo riscado e recolocado!

Lembro da primeira frase, dizia,
"gosto de mulheres compridas"
e lembro que escrevi pois achei bonito o modo como minha professora falava
e movia as mãos.
Mas o resto, agora, ficou preso no limbo lírico.

Espero que alguém tenha lido, pelo menos.
Espero que alguém tenha roubado, mostrado,
pode ter até rido. Mas que exista!
Pois pra mim só restou a sensação de escrever sobre as mulheres
e a desvontade, o desgosto, o desestímulo de compôr tudo de novo
sem nunca ficar igual
e sim, sempre pior ao poema-musa que se foi.
Serão comparações vãs.

Estou triste e vou demorar a escrever sem pensar nele.

terça-feira, 25 de março de 2014

Casas

Casas que abrem as ventanas para os passarinhos,
ah! essas são as melhores!
Casas que toda a manhã não tem vergonha de abrir as pernas
os braços os olhos a boca os ouvidos tudo
para deixar entrar os passarinhos.

Armazém I

A alface, vulgo mato, está supervalorizada
devido a dificuldades nas condições climáticas
que fazem ela não crescer direito
e ficar toda mirradinha.

O vendedor de alfaces,
que colheu verduras
antes de nascer o sol
e trouxe-as a mim
ainda antes das oito,
aquele senhor tem a cara da manhã.

Conversou interessado sobre o avião perdido,
Elogiou a cor do meu cabelo
e me disse bom dia em pomerano
antes de sair assoviando.

Amanhã cedo, novamente,
seu Ademar há de vir:
encomendei alfaces, quarta é dia de salada
E a dondoca da dona Elba
vai aparecer pra reclamar
"cruzes, que alface cara! Vocês não tem vergonha, não?"

quarta-feira, 12 de março de 2014

Descrição de corpo

Os ossos da coluna marcavam o pano da camiseta, pequenos relevos em suas costas curvadas.
A saia longa aumentava a linha de sua magreza
completada ainda, por cabelo denso e liso a cobrir-lhe o rosto feito véu;
Nos pés pantufas mostravam que não iria longe da porta da casa e ali,
com grandes luvas de plástico a envolver pequenas mãos,
movia pedras.

Tentei por um momento parar
 na tentativa de entender aquele corpo: uma força de seguir me puxava pelo ventre e ombros, me endireitando em direção ao meu norte.
Pelo momento que a insistência permitiu
observei o ser a mover pedras
produzindo o som agudo que só as pedras sabem fazer quando se batem.

E os cabelos não libertavam seu rosto.
Seus cabelos cobriam-lhe o rosto propositalmente pois era ela quem não se deixava ver.
Pela porta entreaberta da casa, minha visão esgueirou-se, mas a casa também
Não queria ser vista e escondia-se na escuridão empoeirada.

Meu corpo todo
fazendo força para tirar-me dos ganchos a me arrastar e olhá-la
E o cabelo não deixava ver seu rosto pois ali
não havia já rosto a ser visto.
E a roupa lhe cobria toda pele
Pois não havia ali pele, nem ossos, nem seios, nem pelos, nem nada. Não existia corpo a mover pedras.

O som aquele
Era o som do sofrimento que de tão descrito
Já não existe.
Aquela mulher se dissolveu em meu poema.
Meu poema se dissolve agora
Na imagem que criei.

Minhas pedras são a inveja que me pesa e preciso movê-las mesmo sem suportar o pensamento do som agudo que elas fazem.
Descrevo aqui minha inveja para dissolvê-la em poema.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

...

ontem pensei um poema
sobre ideias que surgem
e fogem

...
...
...