terça-feira, 25 de março de 2014

Casas

Casas que abrem as ventanas para os passarinhos,
ah! essas são as melhores!
Casas que toda a manhã não tem vergonha de abrir as pernas
os braços os olhos a boca os ouvidos tudo
para deixar entrar os passarinhos.

Armazém I

A alface, vulgo mato, está supervalorizada
devido a dificuldades nas condições climáticas
que fazem ela não crescer direito
e ficar toda mirradinha.

O vendedor de alfaces,
que colheu verduras
antes de nascer o sol
e trouxe-as a mim
ainda antes das oito,
aquele senhor tem a cara da manhã.

Conversou interessado sobre o avião perdido,
Elogiou a cor do meu cabelo
e me disse bom dia em pomerano
antes de sair assoviando.

Amanhã cedo, novamente,
seu Ademar há de vir:
encomendei alfaces, quarta é dia de salada
E a dondoca da dona Elba
vai aparecer pra reclamar
"cruzes, que alface cara! Vocês não tem vergonha, não?"

quarta-feira, 12 de março de 2014

Descrição de corpo

Os ossos da coluna marcavam o pano da camiseta, pequenos relevos em suas costas curvadas.
A saia longa aumentava a linha de sua magreza
completada ainda, por cabelo denso e liso a cobrir-lhe o rosto feito véu;
Nos pés pantufas mostravam que não iria longe da porta da casa e ali,
com grandes luvas de plástico a envolver pequenas mãos,
movia pedras.

Tentei por um momento parar
 na tentativa de entender aquele corpo: uma força de seguir me puxava pelo ventre e ombros, me endireitando em direção ao meu norte.
Pelo momento que a insistência permitiu
observei o ser a mover pedras
produzindo o som agudo que só as pedras sabem fazer quando se batem.

E os cabelos não libertavam seu rosto.
Seus cabelos cobriam-lhe o rosto propositalmente pois era ela quem não se deixava ver.
Pela porta entreaberta da casa, minha visão esgueirou-se, mas a casa também
Não queria ser vista e escondia-se na escuridão empoeirada.

Meu corpo todo
fazendo força para tirar-me dos ganchos a me arrastar e olhá-la
E o cabelo não deixava ver seu rosto pois ali
não havia já rosto a ser visto.
E a roupa lhe cobria toda pele
Pois não havia ali pele, nem ossos, nem seios, nem pelos, nem nada. Não existia corpo a mover pedras.

O som aquele
Era o som do sofrimento que de tão descrito
Já não existe.
Aquela mulher se dissolveu em meu poema.
Meu poema se dissolve agora
Na imagem que criei.

Minhas pedras são a inveja que me pesa e preciso movê-las mesmo sem suportar o pensamento do som agudo que elas fazem.
Descrevo aqui minha inveja para dissolvê-la em poema.