segunda-feira, 30 de março de 2015

Transparecer

Tem certas feridas no meu corpo
que surgem como um pelo infeccionado na virilha
ou uma espinha estourada no queixo
as quais cutuco
tirando suas casquinhas
peles recém regeneradas
e metendo nelas minhas unhas
várias vezes ao dia
mesmo sem querer
mesmo que doa
mesmo que algo me diga para parar.

Até que em um determinado momento
as feridas já não fecham
e viram-se em constante carne viva
remexida
já nem sangram
só liberam alguns fluidos corporais
na tentativa vã de cicatrizar.
Mas eu não deixo.

As vezes imagino todo meu corpo invadido
milimetricamente
por essas feridas rosadas amareladas e molhadas
e eu com as unhas cutucando o corpo inteiro
ainda na esperança tosca de ser bela
mas sabendo que o interior
podre
transparece
sempre.

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