sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Incondicional

Amar cada parte do corpo dela
Muito mais que cada parte do meu.
Amar cada marca da sua pele,
a verruguinha no seu ombro,
A cicatriz na coxa de quando caiu de bicicleta
Adolescente no interior.

Qualquer coisa que ela toca vira ouro.
Amar
Suas mãos de trabalhadora
Fortes e ásperas.
Amo seus cabelos macios
e o cheirinho de cigarro escondido na sua pele.

Os pelinhos loiros
feito penugem em seu rosto,
suas rugas.
Amo como o tempo passa e ela parece mais linda.

Amo as estrias em seus seios
e as pequenas varizes em suas lindas pernas.
Amo seus seios que um dia suguei em busca do seu leite que amo.
Eu, quando ainda nem era eu.
Um pedaço de carne
construído em seu ventre,
um filhote.

Tudo
que ela ama vira ouro.
Sob o olhar dela eu me sinto ouro.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Avenca

Murchou a avenca.
Murchou num dia e no outro
Morreu.
"Sensível como uma avenca."
Delicada, à presença do invejoso
Murcha
E morre.

Confesso
dolorosamente
ter trazido estes demônios para casa.
Carrego-os comigo.
Eles habitam meu entorno e os tenho carregado com afinco.

Não é só de inveja que minha alma é doente...
Essa vida de inveja há de matar-me
São dias só de febre na cabeça (...).

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Os medos de Cleide

Cleide já não tem mais medo de elevador.
Ficou, de certa forma,
Surpresa quando
Ao apertar o botão que à levaria ao 12° andar
Não sentiu o típico frio na barriga
Apesar de ter sentido, ainda,
A tonturinha advinda da labirintite psicológica
Herdada de seu pai.

Cleide também já não tem mais
Medo de ventanias e tempestades
- esse medo no seu pai só piora com o passar dos anos.
O velho quase surta
Quando ouve na previsão do tempo sobre a vinda de um
Ciclone extra-tropical -.
Cleide perdeu esse seu medo ao mudar-se para a cidade grande
Pois nas grandes cidades os prédios escondem o horizonte
E a gente não vê as nuvens pretas se aproximando ao longe e nem tem tempo de sentir
o momento aquele
quando tudo fica quieto e aguarda pela tempestade.

Cleide agora mora em um apartamento
E não tem um telhado pra temer voar.

Cleide perdeu
Quase por completo
O medo de avião.
Voou umas quantas vezes nesses últimos meses.
Gosta de decolar e pousar
Mas ficar muito tempo lá em cima
Ainda lhe causa um pouquinho de claustrofobia.
Seu pai andou uma vez de avião e depois disso desenvolveu um grande trauma e prometeu nunca mais fazer grandes viagens.

Cleide não tem mais medo de metrô.
Cleide já fica sozinha numa boa e não tem mais medo de aparições paranormais
Nem de escuro,
Apesar de não lhe ser recomendável assistir a um filme de terror quando precisa ficar sozinha
E apesar de ainda dormir com um abajur aceso por não gostar da sensação de abrir os olhos no meio da noite
E só ver a escuridão.

Perceber que não tem mais medo de elevador foi para Cleide uma grande metáfora pois
tendo nascido e crescido em uma cidade sem elevadores
e sem prédios com mais de três andares,
não ter medo
significa uma mudança pra valer.

Hoje em dia
realmente,
só sinto medo de perder minha mãe.

sábado, 25 de junho de 2016

Rascunho de Te Amar

Te amo
com todo meu corpo;
todos meus pelos
te amam.

Te amo por que penso em ti,
te amo por te querer por perto,
te amo pois me permito te amar.

Te amo
por não ter em mim
nada que me ponha contra teu amor
e recebo teu amor como te recebo em minha casa
com um café.

Te amo
pois sei que me amas 
assim, de leve,
carinhosamente.

Te amo por amar teu cheiro
e a maciez dos teus cabelos.

Te amo pois me sinto aberta,
pra te amar.