quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Os medos de Cleide

Cleide já não tem mais medo de elevador.
Ficou, de certa forma,
Surpresa quando
Ao apertar o botão que à levaria ao 12° andar
Não sentiu o típico frio na barriga
Apesar de ter sentido, ainda,
A tonturinha advinda da labirintite psicológica
Herdada de seu pai.

Cleide também já não tem mais
Medo de ventanias e tempestades
- esse medo no seu pai só piora com o passar dos anos.
O velho quase surta
Quando ouve na previsão do tempo sobre a vinda de um
Ciclone extra-tropical -.
Cleide perdeu esse seu medo ao mudar-se para a cidade grande
Pois nas grandes cidades os prédios escondem o horizonte
E a gente não vê as nuvens pretas se aproximando ao longe e nem tem tempo de sentir
o momento aquele
quando tudo fica quieto e aguarda pela tempestade.

Cleide agora mora em um apartamento
E não tem um telhado pra temer voar.

Cleide perdeu
Quase por completo
O medo de avião.
Voou umas quantas vezes nesses últimos meses.
Gosta de decolar e pousar
Mas ficar muito tempo lá em cima
Ainda lhe causa um pouquinho de claustrofobia.
Seu pai andou uma vez de avião e depois disso desenvolveu um grande trauma e prometeu nunca mais fazer grandes viagens.

Cleide não tem mais medo de metrô.
Cleide já fica sozinha numa boa e não tem mais medo de aparições paranormais
Nem de escuro,
Apesar de não lhe ser recomendável assistir a um filme de terror quando precisa ficar sozinha
E apesar de ainda dormir com um abajur aceso por não gostar da sensação de abrir os olhos no meio da noite
E só ver a escuridão.

Perceber que não tem mais medo de elevador foi para Cleide uma grande metáfora pois
tendo nascido e crescido em uma cidade sem elevadores
e sem prédios com mais de três andares,
não ter medo
significa uma mudança pra valer.

Hoje em dia
realmente,
só sinto medo de perder minha mãe.