quarta-feira, 10 de maio de 2017

Dia 10 de Maio de 2017

- E aí, amiga,
tem trabalhado?

- Não,
não tenho trabalhado.
Na verdade eu desisti,
estou doente.
Maurílio acha que eu vou sair dessa
mas eu acho que vou morrer
de tristeza.

Estou vivendo um clima de insalubridade,
esse cheiro ruim que estamos sentindo vem de mim!
- Que cheiro podre!
- É o que tenho por dentro, amiga, a podridão. É isso que você está sentindo.

Gostei de ver todas essas coisas novas que você vem fazendo,
de verdade.
Me deu um misto de orgulho e inveja.
Inveja da sua casa bonita com um pátio grande cheio de plantas e uma cozinha espaçosa
E do seu jogo de louças e panelas.
Orgulho do modo como você conseguiu sair daquela
e de quantas coisas bonitas você faz. Orgulho de ser amiga
de alguém tão talentosa e sábia,
Inveja dos momentos em que eu tentei dizer algo e você me cortou
para dizer outra coisa mais importante e inteligente,
como você sempre faz
e eu nem consigo revoltar-me pois sei
que realmente sua opinião precisa contar mais
(tamanha minha admiração por ti).

Inveja dos seus seios fartos
do seu corpo alto,
seus cabelos volumosos,
do quanto você sabe sobre arte,
do quanto eu só finjo saber.
Do quanto você lê coisas cultas e sabe falar sobre política,
do quanto eu, por ansiedade
ou mesmo por burrice,
não consigo ficar calma e ler um livro.

A comparação
é inevitável.
Apesar de saber que "cada ser é um ser,
cada vida é uma vida
não há disputa!",
Apesar de repetir esse mantra diariamente,
Não consigo deixar de sentir o que sinto,
e por isso aqui escrevo.
Não consigo fazer coisas belas.
Se eu abro a boca meu fedor interno
podridão e gosma
começa a sair e jorrar pelos ares poluindo o ambiente
e todos percebem em seus íntimos o quanto eu não presto.
A gosma verde-amarelada feito catarro começa a escorrer pelas paredes
O cupins comem as janelas
o lixo cheio de larvas,
as plantas não duram mais de um mês.

Eu gostaria de te pedir desculpas por esses pensamentos.
- Me desculpe, eu sou um verme.
- Não, amiga, você não é um verme.
- Acredite, por favor, eu sou um verme. E então me desculpe, me odeie!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Vida

Que eu possa tomar um café com amigos.
Que eu possa sentar em um café com um amigo sincero
Um velho, um novo amigo,
alguém que esteja disposto a estar em minha companhia
E ser agradável.

Sentar em um café
Tomar um café
Pagar um café se meu amigo estiver pelado e não puder pagar seu próprio café
Eu lhe pago um ou dois ou quantos cafés
Por sua companhia
E se eu não tiver nenhum dinheiro
Que eu tenha algum amigo que queira me pagar um café em troca da minha companhia.
E que eu seja agradável.

E se eu não tiver amigos que aceitem meu convite
No meio da semana, na terça-feira,
Trabalhosa ou folgada,
Que eu possa tomar um café
sozinha em um bom lugar
E que eu seja agradável.


Sobre a necessidade de encontrar codinomes/eu-líricos

Poesia narcisista
Obra egoísta.

Eu eu eu eu eu.
Eu.
Pesa o clima!
Poema diário, sem chaves,
lançado na rede pra ninguém ver
ou pra quem quiser ver
ou pra quem chegar sem querer naquele sítio.
Neste sítio.

Bem aqui,
de onde esse poema não sairá.
Poema sozinho de versos sem fundo
Nascerá e morrerá nesse endereço:

w w w ponto
Aqui jaz
Minha poesia egocêntrica.

domingo, 26 de março de 2017

Tudo vai

Eu estou tão ansiosa que nem sinto mais meu corpo.
É como se a dor não existisse
além da dor de existir.
Como se não existisse corpo em mim.

Estou tão ansiosa que não sei se rio
ou morro.
Tão ansiosa que arranco pedaços de mim.

Tudo vai dar errado.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Egoísmo

Acordei
Fui direto massagear meu ego:
olhar fotos em que me achei bonita
postar algo sobre paz.
É bom estar em casa
Passar o dia em casa com as janelas fechadas
sozinha
pelada.
Ler alguns poemas antigos
Conversar com pessoas que gostam de mim,
ouvir os discos que eu
e somente eu
escolher.

Que sensação!
Café e cigarro.
Suor
é verão.
Sou uma gosma egoísta.

É difícil pensar em meditação quando se mora em um apartamento.
Não há contato com o solo, nem troca de energia.
O chão de um apartamento é uma ilusão:
não tem terra, nem grama, nem energia.

Minhas plantas na janela também não viram o sol hoje.
Estou de folga.