segunda-feira, 10 de julho de 2017

Casas

Da minha casa eu vejo o sol refletido nos vidros do apartamento da frente.
Minha casa também é um apartamento alugado, mas achei que não precisava dizer isso pois a casa de quase todo mundo é um apartamento alugado.
Na minha opinião, a sensação de lar muda bastante quando eu chamo meu apartamento de casa.
Eu tenho sorte de o sol refletir no apartamento da frente e seu reflexo de quase calor e quase luz que gera uma quase sombra,
entrar pela grande janela do meu apartamento. Apesar de ser um sol virtual,
Nem todos tem sol nos apartamentos do centro da capital.
Então eu preciso ficar feliz. E fico.

Minha mãe mora em uma casa. Uma casa mesmo.
Uma casa mesmo que meus pais mesmo construíram.
Na verdade, eles não construíram, né, assim com as próprias mãos.
Eles idealizaram e pagaram a construção com o suor do seu trabalho.
Quem suou construindo foram os pedreiros que eu não lembro o nome
Mas lembro que eu tinha nove anos quando a casa estava sendo erguida e eles tiravam com a minha cara, me deixavam com raiva, eram brincalhões,
e eu via aquela estrutura surgindo: um banheiro, sala, cozinha, uma escada, um chão.
Eu via ela surgindo e subindo de um terreno que antes era só mato.
Eu vi o cano da descarga ser colocado, achei curioso.
Eu podia pular sobre as paredes ainda baixas.

Já a minha avó materna
mora em uma casa que ela mesma construiu.
Ela, o pai dela, a mãe dela, o avô dela.
Eles fizeram tijolo por tijolo de barro.
E as telhas, e tudo.
Eles colocavam barro numa forma, assim, retangular, e socavam o barro, e depois assavam o barro num forno que ainda está lá, inteiro
(ou será que não existe mais? Pode ter quebrado, caído, virado ruína... faz tanto tempo que eu não vou lá. Sinto saudades)
E as telhas eles faziam nas coxas pra ficar com aquele formato
ou será que estou confundindo as histórias e quem fazia as telhas eram os escravos de Pelotas?
Minha bisavó nunca teve escravos,
Graças a Deus.
Isso me deixa um pouco mais aliviada, que naquela época dos escravos meus bisavós estavam vindo pra cá num navio cheio de pomeranos
E eles ganharam as piores terras
Eram mão de obra barata
Claro que sofreram!
Vieram buscando uma vida melhor.
Ainda assim, não eram escravos.
Vieram pois quiseram,
Não vieram arrastados.
Vieram com esperança,
Não vieram desolados.
Carrego em mim uma culpa... Queria descobrir de onde ela vem.


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